"...Mas o quociente de dor que a gente sofre já não é chocante o bastante para não precisar de uma amplificação ficcional, que dê às coisas uma intensidade que é efêmera na vida e que por vezes chega a passar despercebida? Não para algumas pessoas.
Para umas poucas, muito poucas, essa amplificação, que brota do nada, insegura, constitui a única confirmação, e a vida não vivida, especulada, traçada no papel impresso, é a vida cujo significado acaba sendo mais importante..." (Philip Roth, Fantasma Sai de Cena).

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

À minha irmã

Reflexão filosófica nº.... (alguém vê pra mim em qual número paramos...):

Por que magoamos as pessoas de que gostamos?


Um fato ocorrido há minutos me levou a meditar sobre o que nos leva a magoar as outras pessoas (essa pergunta poderia ser uma espécie do gênero “por que fizemos toda sorte de bobagem na nossa vida?”).

Bem, eu tenho uma resposta-teoria.

Em primeiro lugar, devo esclarecer que não tenho qualquer compromisso com a verdade. Aliás, nem acredito nela. Acredito, isso sim, em Manoel de Barros, que disse:

“há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira”.

Feito esse alerta, desde já dou resposta à pergunta inicial: o desejo.

O nosso desejo é o culpado por tudo de errado que fizemos às pessoas de que gostamos.

Explico. Se atendemos ao apelo de nosso desejo sem ponderar os sentimentos alheios, não há dúvida: magoamos alguém.

Por outro lado, se deixamos de lado o nosso desejo em algum contato afetivo (buscando satisfazer a quem gostamos), logo nos sentimos frustrados, e disso decorre uma série de consequências ruins que invariavelmente desembocam em um ato mais ríspido, em uma ironia menos sutil, um esquecimento relevante e... pronto: magoamos alguém.

Mas, e eis a nota menos óbvia na composição dessa reflexão: pior do que atender ou recalcar um desejo, é nem sequer o conhecer.

Não conhecer o que desejamos é o caminho mais curto para um desentendimento, é uma forma rematada de ferrarmos com tudo.

Porque – me desculpem os entendidos no assunto, por tatear entre conceitos que não domino – os desejos jamais desaparecem; só mudam as formas com que damos vazão a eles.

Assim, desejar e não conhecer o desejo, é como caminhar sem saber pra onde se vai: geralmente redunda em perda de tempo e frustração.

Mais do que isso, o desconhecimento dos nossos anseios nos sujeita a investir imensas quantidades de tempo e energia em simulacros de satisfação.

E a vida é cheia de atos que parecem saciar uma necessidade, mas se dirigem a outros fins... comer demais, beber demais (não é a fome nem a sede que se sacia....).

Até escrever um blog pode ser um meio de se enganar (mea culpa).

Porém, se conhecemos o que queremos e empregamos os meios adequados, o tempo não é perdido.

Por exemplo, se eu não soubesse qual desejo me levou a escrever essas palavras, talvez eu me arrependesse pelos 50 minutos passados à frente do computador (afinal, há muito a fazer....e tão pouco tempo....).

Mas eu sei o que me levou a escrever esse texto. Por isso o cansaço dos meus olhos não será em vão:

desculpa.

Dylan, Morrison e eu

Eu sou muito influenciável. Muito impressionável. Suscetível demais a coisas interessantes. Sejam pessoas, filmes, músicas, ou, no caso, livros.

Quando me deparo com alguma dessas fontes irradiadoras de adoração ou culto, me sinto um barco à deriva, levado por uma força muito, muito, maior.

Estou falando do impacto que me causou, aliás, está me causando, ler o livro On The Road, do Jack Kerouac. Quem já leu o livro, deve estar pensando: é só mais um sofrendo o impacto.

Não duvido disso. Aliás, a repercussão da obra está muito bem registrada nas palavras do Eduardo Bueno - que introduziu e traduziu a edição de bolso da L&PM. Olhem só:

"...nenhum livro deste século terá deflagrado uma revolução comportamental maior que a obra de Kerouac".

E muito mais contundente é a seguinte afirmação:

"Bob Dylan fugiu de casa depois de ler On the road (...) Jim Morrison fundou The Doors".

Dylan e Morrison. Depois disso, nada mais é preciso dizer sobre o impacto cultural do livro.

Mas, voltando ao que dizia inicialmente, eu me senti extremamente suscetível ao enredo acelerado e viciante do livro: tive vontade de implementar uma revolução tal na minha vida que equivaleria a fugir de casa, mesmo já morando sozinho....

Tudo isso porque a vida me impressiona, porque as infinitas possibilidades não vividas parecem como mil vidas desperdiçadas, como mil caminhos não trilhados e mil pessoas jamais conhecidas...

E, tendo isso dentro de si, não há como não se sentir impulsionado rumo à vida, ao ler uma obra em que o desapego do protagonista pelos padrões da vida sensata e socialmente aceita é apenas a parte menos importante... A parte mais importante para Sal Paradise (o protagonista) não é a rejeição ao seu status social, nem mesmo é a rejeição a qualquer standart cultural ou à lema político-ideológico, mas é tão-só a busca pelo contato mais íntimo com a vida, pelo conhecimento mais empírico sobre o mundo.

Não sei a que o livro me levará, mas sua força impulsora já está em mim...

"How does it feel
To be on your own
With no direction home
Like a complete unknown?"

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Al lado del camino

Todos os dias, faltando umas duas quadras para chegar em casa, eu inconscientemente tiro do bolso as chaves do apartamento, seguro-as na mão e vou caminhando assim até encontrar a porta esperada.

Faço isso ao meio-dia. Faço isso no final da tarde. E quase sinto o conforto dos meus chinelos com esse gesto de antecipar outro gesto: segurar as chaves antes de chegar, para abrir a porta de casa antes de estar lá.

Percebi nessa mania uma representação de algo maior na minha vida: meu anseio por estar sempre em um lugar em que ainda não cheguei.

Se parar pra pensar, sempre fiz isso. Quase sempre (raras foram as exceções) meu corpo estava em um lugar, mas minha mente já ia adiante.

Isso demonstra que sou uma pessoa insatisfeita? Ou simplesmente ambiciosa? Ou as duas coisas?

Não sei, mas por tentar sempre antecipar um momento desejado, pela força de querer alcançar um espaço à frente – me pergunto agora –, quanto coisa deixei passar pelo caminho?

Quanta coisa não vi à minha volta, simplesmente por não estar realmente presente, por não viver o momento vivido, mas tão-só o momento imaginado, anunciado...

Quando li a citação que abre “Ensaio sobre a cegueira”, me lembro bem, pensei como aquilo servia para mim –“Se podes olhar, vê. Se podes ver, enxerga”.

Dizem os psicanalistas que “o fim do desejo é a morte”; ou “estamos sempre desejando algo”.
Tudo bem. Até acredito que o constante desejar seja algo ínsito ao ser humano. Mas viver o presente apenas por conta do futuro desejado não me parece bom.

Não exageremos, meu caso não é tão ruim quanto parece.

Mas se pudesse, gostaria de ser como o personagem de “Al lado del camino”, que se contenta em abrir os olhos e estar vivo...

"Me gusta estar a un lado del camino fumando el humo mientras todo pasa
me gusta abrir los ojos y estar vivo
tener que vérmelas con la resaca
entonces navegar se hace preciso
en barcos que se estrellen en la nada
vivir atormentado de sentido
creo que ésta, sí, es la parte mas pesada " (Fito Paez).

Às moscas

O blog andou às moscas... eu sei. Não pude escrever nada nos últimos dias. E se volto à carga agora, é menos por vontade do que por necessidade...

"A palavra é o testemunho de uma ausência. Escrevemos, antes de tudo, para testemunhar nossas faltas, quer procurando supri-las, quer buscando carinho para aliviar a dor. Escrevemos para dizer o que não sabemos, o que não amamos, o que não somos - mas queremos".

O trecho é do livro Redação Inquieta, do Gustavo Bernado, o qual será objeto de maiores comentários tão-logo seja possível.