O amor tem de nos alimentar e nos consumir ao mesmo tempo. Se só alimenta, enche; se só consome, esvazia. Pensando assim, creio que tive uma relação de amor com a Ilha Metafórica, pois ela me alimentava (de espaço e ócio) e me consumia (com idéias e planos).
Esse blog, por exemplo, foi concebido e gestado na Ilha. Nasceu sob o signo da solidão, e deu seus primeiros passos nos amplos campos que se estendiam à vista da janela de meu apartamento...
Hoje não moro mais na Ilha.
E vejo claramente a diferença que faz: ainda estou cheio de idéias e planos, mas aquele espaço todo e aquele ócio ficaram para trás.
Hoje meus horizontes estão próximos demais; e o tempo é premente. Isso comprime meu ser, fazendo com que eu me sinta um compartimento pequeno para tantos acontecimentos.
Sei que depende de mim encontrar um lugar no mundo que me alimente e me consuma, como o amor que perseguimos.
É isso que me faz caminhar.
“Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo....
Por isso a minha aldeia é grande como outra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista a chave,
Escondem o horizonte, empurram nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a única riqueza é ver”.
(Alberto Caeiro, em "O Guardador de Rebanhos").
*A Ilha Metafórica nunca foi conceituada neste blog (nem precisaria), mas foi mencionada pela primeira vez no post do dia 24 de janeiro de 2009.
domingo, 3 de maio de 2009
quarta-feira, 29 de abril de 2009
Não há arrependimentos...
Bem, vou ser breve, pois estou em uma lan house e preciso correr pra casa. Há coisas a fazer.
Mas compartilho uma das frases mais inspiradoras que li nos últimos tempos, e absolutamente apropriada ao presente momento. Veio de uma amiga, que disse para eu colocar amor em todos meus passos, pois
"não há arrependimentos quando há amor"...
Obrigado pelo incentivo.
Mas compartilho uma das frases mais inspiradoras que li nos últimos tempos, e absolutamente apropriada ao presente momento. Veio de uma amiga, que disse para eu colocar amor em todos meus passos, pois
"não há arrependimentos quando há amor"...
Obrigado pelo incentivo.
sexta-feira, 17 de abril de 2009
Palavra repetida
“A falta que todo homem carrega consigo o tempo todo é aquela que explica e dá sentido a boa parte dos seus atos e lapsos.
Eis a palavra, testemunhando a ausência e a falta”. Gustavo Bernardo, Redação Inquieta.
Tenho a sorte de trabalhar com a escrita. Não exatamente com a escrita, mas utilizando as palavras para meu sustento (“lutar com palavras é a luta mais vã, entanto lutamos mal rompe a manhã...” O Lutador, Drummond).
E os textos que escrevo a trabalho, embora tão formais como exige o meio (não me refiro ao blog, evidentemente), servem de espelho à minha falta.
Sim, somos seres faltantes. É uma condição humana. Não sentir falta é estar doente, ou morto. Não é essa a novidade que quero contar.
Arriscaria dizer que todos põem sua falta em algo do dia-a-dia: na fala, nos gestos, nas roupas, no caminhar...
Eu, como dito, deixo que minha falta se misture às palavras que escolho para me comunicar (essa constatação, devo dizer, é relativamente recente para mim: há uns dois anos apenas percebi o quanto posso ler nas entrelinhas das minhas palavras, sejam elas ditas ou escritas).
Pois bem, um dia desses, escrevendo uma anotação qualquer, percebi o quanto havia usado repetidamente uma determinada palavra, a palavra “já”.
A partir de então, comecei a prestar a atenção nos textos que escrevia, e me dei conta da utilização constante e abusiva do “já”. Estava escrevendo: “já que isso havia acontecido” e “já em relação a tal coisa” e “já havia sido dito” e “já mencionado” e daí pra fora...
Sempre vi como pobreza do escritor a repetição de palavras (salvo quando exigida para a segurança e clareza de certos textos). Mas nesse caso, a repetição em que estava incorrendo aborreceu-me menos pela questão formal do que pela questão simbólica.
Explicando, o que me deixou inquieto não foi detectar nos meus textos um defeito que sempre me desagradou nas obras alheias; o que me deixou inquieto foi desconhecer a razão pela qual eu estava repetindo especificamente a palavra “já”.
Obviamente nem me ocorreu que fosse mero acaso a eleição daquela palavra. A psicanálise não me deixa acreditar em acasos, quando se trata de ações humanas.
Além disso, se escrever é um exercício de auto-afirmação, há de se admitir que as palavras que não escolhemos – mas que vem à tona, do poço escuro do inconsciente – também querem afirmar algo, quererem mostrar algo que não desejamos ver conscientemente...
Ou seja, “a palavra testemunha a ausência e a falta”. E alguma falta, no meu caso, estava sendo testemunhada pela palavra repetida.
Nem preciso dizer que acabei realizando uma espécie de "auto-análise" a partir da palavra “já”, tentando buscar os significados inconscientes que ela tinha pra mim.
O resultado disso?
Nada de diferente à minha volta.
Mas posso entender agora, com relativa clareza (nunca há certeza), a mensagem que palavra repetida trazia... e sobretudo posso ver qual era a falta que ela testemunhava.
(e dar-se conta é sempre o primeiro passo...).
Eis a palavra, testemunhando a ausência e a falta”. Gustavo Bernardo, Redação Inquieta.
Tenho a sorte de trabalhar com a escrita. Não exatamente com a escrita, mas utilizando as palavras para meu sustento (“lutar com palavras é a luta mais vã, entanto lutamos mal rompe a manhã...” O Lutador, Drummond).
E os textos que escrevo a trabalho, embora tão formais como exige o meio (não me refiro ao blog, evidentemente), servem de espelho à minha falta.
Sim, somos seres faltantes. É uma condição humana. Não sentir falta é estar doente, ou morto. Não é essa a novidade que quero contar.
Arriscaria dizer que todos põem sua falta em algo do dia-a-dia: na fala, nos gestos, nas roupas, no caminhar...
Eu, como dito, deixo que minha falta se misture às palavras que escolho para me comunicar (essa constatação, devo dizer, é relativamente recente para mim: há uns dois anos apenas percebi o quanto posso ler nas entrelinhas das minhas palavras, sejam elas ditas ou escritas).
Pois bem, um dia desses, escrevendo uma anotação qualquer, percebi o quanto havia usado repetidamente uma determinada palavra, a palavra “já”.
A partir de então, comecei a prestar a atenção nos textos que escrevia, e me dei conta da utilização constante e abusiva do “já”. Estava escrevendo: “já que isso havia acontecido” e “já em relação a tal coisa” e “já havia sido dito” e “já mencionado” e daí pra fora...
Sempre vi como pobreza do escritor a repetição de palavras (salvo quando exigida para a segurança e clareza de certos textos). Mas nesse caso, a repetição em que estava incorrendo aborreceu-me menos pela questão formal do que pela questão simbólica.
Explicando, o que me deixou inquieto não foi detectar nos meus textos um defeito que sempre me desagradou nas obras alheias; o que me deixou inquieto foi desconhecer a razão pela qual eu estava repetindo especificamente a palavra “já”.
Obviamente nem me ocorreu que fosse mero acaso a eleição daquela palavra. A psicanálise não me deixa acreditar em acasos, quando se trata de ações humanas.
Além disso, se escrever é um exercício de auto-afirmação, há de se admitir que as palavras que não escolhemos – mas que vem à tona, do poço escuro do inconsciente – também querem afirmar algo, quererem mostrar algo que não desejamos ver conscientemente...
Ou seja, “a palavra testemunha a ausência e a falta”. E alguma falta, no meu caso, estava sendo testemunhada pela palavra repetida.
Nem preciso dizer que acabei realizando uma espécie de "auto-análise" a partir da palavra “já”, tentando buscar os significados inconscientes que ela tinha pra mim.
O resultado disso?
Nada de diferente à minha volta.
Mas posso entender agora, com relativa clareza (nunca há certeza), a mensagem que palavra repetida trazia... e sobretudo posso ver qual era a falta que ela testemunhava.
(e dar-se conta é sempre o primeiro passo...).
quinta-feira, 2 de abril de 2009
A planta da infância
"Que culpa temos nós dessa planta da infância,
de sua sedução, de seu viço, de sua constância?"
(Jorge de Lima)
Não sei ao certo o que escrever... mas estou sob a influência de uma conversa que tive no último final de semana... e quando algo não sai da minha cabeça, é porque devo escrever sobre isso.
Bem, a conversa era sobre seguir o próprio desejo, a despeito de o quanto possamos ser criticados, censurados e mesmo excluídos por conta dessa decisão.
Quando minha interlocutora comentou que se sentia recriminada pela sociedade (e especialmente por sua mãe), eu respondi: o que importa é que você fez o que desejava, mas não pode ter a ilusão de “viver é indolor” (assumi que a frase “La ilusión de que vivir es indoloro” não era minha, mas do Jorge Drexler – Soledad).
Falei também que ninguém tem culpa de ser como é. A culpa, na verdade, é de nossos pais. Mas eles também não são culpados, os culpados são os pais deles, que os fizeram ser como são... e assim por diante, culpa transferida para as gerações anteriores, até remontar o primeiro pecado, o pecado original (que, dizem uns, não foi o ato de desejar, mas o ato de ter consciência de si, tomar pra si a sabedoria que só deus poderia ter...).
Enfim, ninguém tem culpa da planta da infância, como diria o Jorge de Lima.
Mas é claro que essa proposição (ninguém tem culpa da planta da infância) não significa transferir toda responsabilidade por nossa personalidade a nossos pais. Não é isso.
É apenas reconhecer que, no processo de formação do indivíduo, atua essa força suprema, avassaladora, personificada no pai e na mãe. A lei e o amor tomam corpo nessas pessoas que moldam, pro bem e pro mal, o barro informe da nossa psique infantil...
(não falarei de Freud; não quero ser chato: a psicanálise é tão fascinante quanto impopular nesse país).
O fato é que muito da nossa angústia pode ser extravasada quando identificamos a origem das questões de nossa personalidade – e a origem é quase sempre tão importante quanto remota...
Então, com esse texto cheio de reticências (como está a minha compreensão sobre as coisas), acho que estou dizendo que a vida, embora não seja indolor (como canta o Jorge Drexler) pode ser menos tormentosa, menos opressora.
Mas pra isso é necessário navegar em águas mais profundas...
“Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor...
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.”
(Fernando Pessoa).
de sua sedução, de seu viço, de sua constância?"
(Jorge de Lima)
Não sei ao certo o que escrever... mas estou sob a influência de uma conversa que tive no último final de semana... e quando algo não sai da minha cabeça, é porque devo escrever sobre isso.
Bem, a conversa era sobre seguir o próprio desejo, a despeito de o quanto possamos ser criticados, censurados e mesmo excluídos por conta dessa decisão.
Quando minha interlocutora comentou que se sentia recriminada pela sociedade (e especialmente por sua mãe), eu respondi: o que importa é que você fez o que desejava, mas não pode ter a ilusão de “viver é indolor” (assumi que a frase “La ilusión de que vivir es indoloro” não era minha, mas do Jorge Drexler – Soledad).
Falei também que ninguém tem culpa de ser como é. A culpa, na verdade, é de nossos pais. Mas eles também não são culpados, os culpados são os pais deles, que os fizeram ser como são... e assim por diante, culpa transferida para as gerações anteriores, até remontar o primeiro pecado, o pecado original (que, dizem uns, não foi o ato de desejar, mas o ato de ter consciência de si, tomar pra si a sabedoria que só deus poderia ter...).
Enfim, ninguém tem culpa da planta da infância, como diria o Jorge de Lima.
Mas é claro que essa proposição (ninguém tem culpa da planta da infância) não significa transferir toda responsabilidade por nossa personalidade a nossos pais. Não é isso.
É apenas reconhecer que, no processo de formação do indivíduo, atua essa força suprema, avassaladora, personificada no pai e na mãe. A lei e o amor tomam corpo nessas pessoas que moldam, pro bem e pro mal, o barro informe da nossa psique infantil...
(não falarei de Freud; não quero ser chato: a psicanálise é tão fascinante quanto impopular nesse país).
O fato é que muito da nossa angústia pode ser extravasada quando identificamos a origem das questões de nossa personalidade – e a origem é quase sempre tão importante quanto remota...
Então, com esse texto cheio de reticências (como está a minha compreensão sobre as coisas), acho que estou dizendo que a vida, embora não seja indolor (como canta o Jorge Drexler) pode ser menos tormentosa, menos opressora.
Mas pra isso é necessário navegar em águas mais profundas...
“Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor...
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.”
(Fernando Pessoa).
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