Existe uma cena em um filme do Woody Allen – de cujo nome confesso não lembrar, embora suspeite seja “celebridades” – em que uma noiva está no altar, prestes a se casar com um homem aparentemente honesto, aparentemente fiel e aparentemente muito apaixonado por ela.
A protagonista da cena, no momento do sim, abandona o altar e sai correndo porta afora. Vagueia pela rua e entra na casa de uma quiromante, a quem explica ter acabado de deixar para trás aquele que poderia ser o homem da sua vida.
Poderia, pois certeza a noiva não tinha, e por isso desistira no último instante.
Mais do que isso, a noiva pensava que tinha de haver algo de errado com o noivo, justamente por ele parecer alguém tão cheio de virtudes e tão diferente das pessoas com quem ela se relacionara até então. Tinha de haver algo de errado porque ele parecia perfeito para ela
A quiromante lê a mão da noiva e lhe tranqüiliza, dizendo para procurar o noivo abandonado, pois ele a amava e a aceitaria de volta.
Como profetizado, o casal vem a se reencontrar tempos depois e a se casar finalmente. Vivem um relacionamento feliz.
A cena deixa claro: a noiva acreditava piamente não merecer a sorte de haver encontrado alguém que verdadeiramente a amava.
E assim pensava não apenas porque seu último casamento fracassara; ou porque seu ex-marido (com quem fora casada por 20 anos) a ignorava e a traía.
Isso acontecia porque aquela mulher fora “educada”, principalmente pela família e pela religião (temas recorrentes para Allen), para acreditar que não merecia receber a felicidade em sua vida. Esta só seria destinada a poucos bem-aventurados, aos integrantes de uma casta a qual ela não pertencia (como seus pais não pertenceram).
Como supunha não ser merecedora de algo bom, a noiva inconscientemente teve de imaginar existir algo de ruim atrás das boas aparências, teve de imaginar que o fracasso viria mais cedo ou mais tarde, ainda que as circunstâncias (as boas impressões emanadas do noivo) indicassem exatamente o contrário.
Isso me faz pensar: quais das nossas limitações são reais e quais são imaginárias?
Quando não nos aproximamos de algo que desejamos, porque desde logo nos imaginamos incapazes de alcançar o objeto de nosso desejo, será que não estamos colocando uma interdição imaginária à nossa felicidade? Não estamos interditando o nosso desejo simplesmente por nos acharmos indignos da felicidade que satisfazê-lo pode nos proporcionar?
Quando estamos próximos de conquistar algo desejado, mas supomos que alguma desgraça imprevista acontecerá e nos privará da felicidade, não estamos nos comportando como essa noiva de Allen?
No filme, a fuga do altar (fuga da felicidade) foi remediada adiante, mas na vida real nem sempre há uma segunda chance...