"...Mas o quociente de dor que a gente sofre já não é chocante o bastante para não precisar de uma amplificação ficcional, que dê às coisas uma intensidade que é efêmera na vida e que por vezes chega a passar despercebida? Não para algumas pessoas.
Para umas poucas, muito poucas, essa amplificação, que brota do nada, insegura, constitui a única confirmação, e a vida não vivida, especulada, traçada no papel impresso, é a vida cujo significado acaba sendo mais importante..." (Philip Roth, Fantasma Sai de Cena).

sexta-feira, 11 de junho de 2010

O preço da segurança II

Millôr fala na eterna chateação pela obediência irrestrita a cautelas excessivas (ver último post). Não se expor a riscos pode ser a saída para se viver longos anos. Mas o custo dessa diminuição de riscos não é, em si mesmo, um risco de infelicidade?

Tenderia a dizer que sim. Mas não há uma resposta correta, poisquem se contente em não atravessar a rua, não viajar de avião, não sair à chuva.

Se você não se enquadra nessa situação de se contentar com o tédio, talvez pudesse se valer da equação existencial que segue (sendo “danoqualquer revés potencialmente doloroso e “chance de ser felizqualquer aumento no grau de felicidade):

risco de dano ≤ chance de ser feliz = vai nessa

risco de dano ≥ chance de ser feliz = segura sua onda

Se a aplicação prática dessas equações não surtir o efeito desejado, estará provado que não adianta equacionar nada (a avaliação risco/ganho é inútil em termos existenciais), logo é inútil se evitarem os riscos, logo a busca da felicidade é única e imperativa regra...

terça-feira, 8 de junho de 2010

O preço da segurança

Como uma amiga houvesse me perguntado “tudo bem? tudo bem, mesmo?” após ler o último post, resolvi desde logo escrever outro, este inspirando melhores humores.

Trata-se, em verdade, de uma citação colhida a esmo em um livro de estimação.

Mas não apenas uma citação, pois o texto é de Millôr Fernandes, escritor a quem não se pode atribuir qualquer predicado restritivo.


“Realmente, se você não atravessar a rua dificilmente será atropelado, se não entrar num avião é quase impossível que morra num desastre de aviação, se evitar correntes de ar terá menos resfriados, se não prevaricar manterá mais firmemente a harmonia do lar, se não beber cometerá menos desatinos, se gastar menos do que ganha terá sempre uma reserva para os dias difíceis, uma vida muito mais segura do que do estróina e pródigo. O preço da segurança é a eterna chateação”.


(Dos Riscos de Existir. Conversa com Rubem Braga. 1971)

domingo, 6 de junho de 2010

Limitações reais. Limitações imaginárias.

Existe uma cena em um filme do Woody Allen – de cujo nome confesso não lembrar, embora suspeite seja “celebridades” – em que uma noiva está no altar, prestes a se casar com um homem aparentemente honesto, aparentemente fiel e aparentemente muito apaixonado por ela.

A protagonista da cena, no momento do sim, abandona o altar e sai correndo porta afora. Vagueia pela rua e entra na casa de uma quiromante, a quem explica ter acabado de deixar para trás aquele que poderia ser o homem da sua vida.

Poderia, pois certeza a noiva não tinha, e por isso desistira no último instante.

Mais do que isso, a noiva pensava que tinha de haver algo de errado com o noivo, justamente por ele parecer alguém tão cheio de virtudes e tão diferente das pessoas com quem ela se relacionara até  então. Tinha de haver algo de errado porque ele parecia perfeito para ela

A quiromante a mão da noiva e lhe tranqüiliza, dizendo para procurar o noivo abandonado, pois ele a amava e a aceitaria de volta.

Como profetizado, o casal vem a se reencontrar tempos depois e a se casar finalmente. Vivem um relacionamento feliz.

A cena deixa claro: a noiva acreditava piamente não merecer a sorte de haver encontrado alguém que verdadeiramente a amava.

E assim pensava não apenas porque seu último casamento fracassara; ou porque seu ex-marido (com quem fora casada por 20 anos) a ignorava e a traía.

Isso acontecia porque aquela mulher fora “educada”, principalmente pela família e pela religião (temas recorrentes para Allen), para acreditar que não merecia receber a felicidade em sua vida. Esta seria destinada a poucos bem-aventurados, aos integrantes de uma casta a qual ela não pertencia (como seus pais não pertenceram).

Como supunha não ser merecedora de algo bom, a noiva inconscientemente teve de imaginar existir algo de ruim atrás das boas aparências, teve de imaginar que o fracasso viria mais cedo ou mais tarde, ainda que as circunstâncias (as boas impressões emanadas do noivo) indicassem exatamente o contrário.

Isso me faz pensar: quais das nossas limitações são reais e quais são imaginárias? 

Quando não nos aproximamos de algo que desejamos, porque desde logo nos imaginamos incapazes de alcançar o objeto de nosso desejo, será que não estamos colocando uma interdição imaginária à nossa felicidade? Não estamos interditando o nosso desejo simplesmente por nos acharmos indignos da felicidade que satisfazê-lo pode nos proporcionar?

Quando estamos próximos de conquistar algo desejado, mas supomos que alguma desgraça imprevista acontecerá e nos privará da felicidade, não estamos nos comportando como essa noiva de Allen?

No filme, a fuga do altar (fuga da felicidade) foi remediada adiante, mas na vida real nem sempre há uma segunda chance...


domingo, 30 de maio de 2010

Ninguém nos tira o vivido

Hoje é dia de indicações.

A primeira veio de alguém especial, e, tendo sido absolutamente aprovada (a indicação), repasso-a aos interessados em boa leitura: o texto "nadie te quita lo vivido", da psicanalista Diana Corso.

Foi publicado na Zero Hora de 26.05.2010. Ligação:

http://wp.clicrbs.com.br/terradonunca/2010/05/26/nadie-te-quita-lo-vivido/?topo=77,1,,,,77

A segunda indicação é minha última aquisição: Ferreira Gullar, Toda Poesia, da Ed. José Olympio. Obra da qual extraio:


A Alegria


O sofrimento não tem
nenhum valor.
Não acende um halo
em volta de tua cabeça, não
ilumina trecho algum
de tua carne escura
(nem mesmo o que iluminaria
a lembrança ou a ilusão
de uma alegria).


Sofres tu, sofre
um cachorro ferido, um inseto
que o inseticida envenena.
Será maior a tua dor
que a daquele gato que viste
a espinha quebrada a pau
arrastando-se a berrar pela sarjeta
sem ao menos poder morrer?


             A justiça é moral, a injustiça
não. A dor
te iguala a ratos e baratas
que também de dentro dos esgotos
espiam o sol
e no seu corpo nojento
de entre fezes
             querem estar contentes.