Chico Canta, de 1973, é uma obra-prima. Nessa obra-prima, entre músicas mais conhecidas do público, como Tatuagem, há uma pela qual possuo apreço ímpar: Tira as mãos de mim.
O eu lírico dessa canção-poema é uma mulher em conflito: vive com um homem; deseja outro. Daí a comparação que permeia o texto: "Ele era mil/ Tu és nenhum".
A aparente contradição do refrão é a representação perfeita do conflito do eu lírico. Ao dizer "Tira as mãos de mim/ Põe as mãos em mim", a protagonista dirige-se ora ao homem com quem vive (o homem presente, a quem não deseja), ora ao homem ausente (aquele a quem deseja).
Isto é, a música utiliza, de forma não explícita, o recurso da troca de um dos interlocutores do discurso. É sempre a mulher que fala, mas cada verso se dirige a um homem diferente. Assim, temos "tira as mãos de mim", tu, meu amante; e "põe as mãos em mim", tu, meu amado.
E essa é apenas uma interpretação possível. Gosto também de interpretar a mudança de ordens (tira as mãos/põe as mãos) não como uma mudança de receptor do discurso, mas como uma forma de a protagonista (a emissora das ordens) externar um conflito que não suporta mais guardar para si; o conflito de estar com alguém mas desejar a companhia de outra pessoa.
Em outras palavras, a protagonista abre o jogo com seu parceiro, dizendo-lhe claramente: podemos ficar juntos, mas saibas que não és tu quem amo.
Essa verbalização faz da protagonista uma mulher que assume seu próprio desejo, mas que, por sabê-lo irrealizável, decide entregar-se aos braços de quem não ama, quiçá na esperança de fazer queimar no novo enlace as chamas do relacionamento extinto, guardadas dentro de si.
Por isso diz: "Tira as mãos de mim/ Põe as mãos em mim/ E vê se o fogo dele/ Guardado em mim/ Te incendeia um pouco...".
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
sábado, 11 de setembro de 2010
A maior riqueza
A maior riqueza de um homem são seus amigos. Quão maior for a profundidade e a qualidade das amizades feitas, maior será o proveito de nossa passagem pela vida. Recentemente tive de enfrentar uma situação difícil, a qual foi resolvida com o apoio de amigos preciosos.
Ao lado de estarem ao meu lado nessas horas sombrias, essas pessoas também me deixaram pedacinhos de suas experiências pessoais - verdadeiras lições de como levar uma vida menos tormentosa.
Hoje de manhã tive uma conversa com uma amiga que muito me auxiliou nos últimos tempos. A conversa iniciada por amenidades logo chegou a profundidades só acessíveis a pessoas que se compreendem.
Minha interlocutora então me contou sobre uma teoria (que depois vim descobrir se tratar da teoria da janela de Joharti), para a qual nossa identidade seria como uma janela dividida em quatro partes: uma parte da janela representaria aqueles elementos de nosso ser que estão visíveis para nós mesmos e para as demais pessoas; outra parte representaria aquilo que só nós conseguimos visualizar sobre nós mesmos; uma outra parte representaria aquilo que só as outras pessoas conseguem visualizar sobre nós; e a última parte da janela simbolizaria o completo desconhecimento, aquilo que não é visto nem conhecido por ninguém (sequer por nós).
O interessante, segundo minha leitura (ou segundo meu desvirtuamento) dessa teoria, seria a noção de que quanto maior for a parte que os outros conseguem conhecer de nós, menor será a parte que simboliza o completo desconhecimento sobre nosso self. Em outras palavras, o conhecimento do outro sobre nós (quando permitimos sejamos conhecidos de verdade), ajuda a dirigir um pequeno feixe de luz sobre nossos sentimentos mais indecifráveis.
Assim, de bons relacionamentos extraímos lições para nos conhecermos e vivermos melhor, assim bons amigos são nossa maior riqueza...
Interlúdio
As palavras estão muito ditas
e o mundo muito pensado.
Fico ao teu lado.
Não me digas que há futuro
nem passado.
Deixa o presente — claro muro
sem coisas escritas.
Deixa o presente. Não fales,
Não me expliques o presente,
pois é tudo demasiado.
Em águas de eternamente,
o cometa dos meus males
afunda, desarvorado.
Fico ao teu lado.
(CM).
Ao lado de estarem ao meu lado nessas horas sombrias, essas pessoas também me deixaram pedacinhos de suas experiências pessoais - verdadeiras lições de como levar uma vida menos tormentosa.
Hoje de manhã tive uma conversa com uma amiga que muito me auxiliou nos últimos tempos. A conversa iniciada por amenidades logo chegou a profundidades só acessíveis a pessoas que se compreendem.
Minha interlocutora então me contou sobre uma teoria (que depois vim descobrir se tratar da teoria da janela de Joharti), para a qual nossa identidade seria como uma janela dividida em quatro partes: uma parte da janela representaria aqueles elementos de nosso ser que estão visíveis para nós mesmos e para as demais pessoas; outra parte representaria aquilo que só nós conseguimos visualizar sobre nós mesmos; uma outra parte representaria aquilo que só as outras pessoas conseguem visualizar sobre nós; e a última parte da janela simbolizaria o completo desconhecimento, aquilo que não é visto nem conhecido por ninguém (sequer por nós).
O interessante, segundo minha leitura (ou segundo meu desvirtuamento) dessa teoria, seria a noção de que quanto maior for a parte que os outros conseguem conhecer de nós, menor será a parte que simboliza o completo desconhecimento sobre nosso self. Em outras palavras, o conhecimento do outro sobre nós (quando permitimos sejamos conhecidos de verdade), ajuda a dirigir um pequeno feixe de luz sobre nossos sentimentos mais indecifráveis.
Assim, de bons relacionamentos extraímos lições para nos conhecermos e vivermos melhor, assim bons amigos são nossa maior riqueza...
Interlúdio
As palavras estão muito ditas
e o mundo muito pensado.
Fico ao teu lado.
Não me digas que há futuro
nem passado.
Deixa o presente — claro muro
sem coisas escritas.
Deixa o presente. Não fales,
Não me expliques o presente,
pois é tudo demasiado.
Em águas de eternamente,
o cometa dos meus males
afunda, desarvorado.
Fico ao teu lado.
(CM).
terça-feira, 10 de agosto de 2010
O som de meus passos
Era uma sensação boa, e de fato continuei de sapatos em casa, mas não realizei nada digno de nota naquele dia. A não ser recordar que alguns anos atrás havia tido uma sensação parecida: sentira que o som de meus passos me dizia algo importante.
Lembro de estar descendo pelas ruas silenciosas de um sábado à tarde rumo a minha antiga casa. O som do solado dos meus sapatos no cimento da calçada era tudo que eu ouvia naquele momento, certamente por olhar para meus pés enquanto caminhava e por não pensar em mais nada.
Então me ocorreu que minha existência se resumia ao som de meus passos. Mais do que isso: aquele som provava que eu estava vivo e me dizia que era necessário continuar caminhando. Enquanto eu caminhasse, tudo estaria bem...
Depois daquele dia, nunca mais tive aquela sensação. Mas hoje compreendo o ensinamento do som de meus passos e vejo a importância de continuar caminhando, pois todas as boas mudanças que sucederam em minha vida só ocorreram porque não estanquei minha marcha em face dos tantos medos paralisantes que me perseguem; só ocorreram porque não deixei de caminhar...
Embora os passos errados, os passos incertos, o passos em círculos, caminhei, a vida mudou, e me sinto feliz...
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Justifique meu amor
Jantando, para amenizar o silêncio (não costumo fazer isso; gosto do silêncio), liguei a televisão. Como não desejasse assistir a nada sério, fui para o canal de clipes. De repente, entre pedaços de pão, escutei justify my love, da Madonna.
Não tenho predileção específica pela Madonna, mas gostei muito de ouvi-la sussurrar: justifique meu amor...
Devaneios alimentares (aquele requeijão estava mesmo com uma aparência alucinógena) me fizeram compor uma cena em que eu, com olhar lânguido, diria isso a uma bela mulher: justifique meu amor!
Retornando dos devaneios, quis entender qual o significado de "justificar o amor", porque, a rigor, o amor é, por razões óbvias, sempre justificado. Amar é um processo natural (naturalmente doentio, diria Freud) pelo qual o olhar do ser amado nos torna menos faltantes (pra não dizer ilusoriamente completos). Amar preenche nossos buracos existenciais e, em suma, essa é uma justificativa suficiente. Logo, não faria sentido dizer para alguém "justifique meu amor..."
Bem, na verdade faria.
Retornando dos devaneios, quis entender qual o significado de "justificar o amor", porque, a rigor, o amor é, por razões óbvias, sempre justificado. Amar é um processo natural (naturalmente doentio, diria Freud) pelo qual o olhar do ser amado nos torna menos faltantes (pra não dizer ilusoriamente completos). Amar preenche nossos buracos existenciais e, em suma, essa é uma justificativa suficiente. Logo, não faria sentido dizer para alguém "justifique meu amor..."
Bem, na verdade faria.
Dentro dos possíveis sentidos a serem construídos, elaborei um com auxílio do dicionário Oxford.
Para o dicionário Oxford (http://oxforddictionaries.com/definition/justify), uma das definições de "justify" é "be a good reason for".
Para o dicionário Oxford (http://oxforddictionaries.com/definition/justify), uma das definições de "justify" é "be a good reason for".
Nesse caso, faz mesmo sentido dizer "seja uma boa razão para meu amor".
Porque o amor até pode ser, abstratamente falando, sempre justificado. Mas ele vale a pena mesmo quando encontramos alguém que seja uma boa razão para amar.
Porque o amor até pode ser, abstratamente falando, sempre justificado. Mas ele vale a pena mesmo quando encontramos alguém que seja uma boa razão para amar.
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