"...Mas o quociente de dor que a gente sofre já não é chocante o bastante para não precisar de uma amplificação ficcional, que dê às coisas uma intensidade que é efêmera na vida e que por vezes chega a passar despercebida? Não para algumas pessoas.
Para umas poucas, muito poucas, essa amplificação, que brota do nada, insegura, constitui a única confirmação, e a vida não vivida, especulada, traçada no papel impresso, é a vida cujo significado acaba sendo mais importante..." (Philip Roth, Fantasma Sai de Cena).

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Tira as mãos de mim

Chico Canta, de 1973, é uma obra-prima. Nessa obra-prima, entre músicas mais conhecidas do público, como Tatuagem, há uma pela qual possuo apreço ímpar: Tira as mãos de mim.

O eu lírico dessa canção-poema é uma mulher em conflito: vive com um homem; deseja outro. Daí a comparação que permeia o texto: "Ele era mil/ Tu és nenhum".

A aparente contradição do refrão é a representação perfeita do conflito do eu lírico. Ao dizer "Tira as mãos de mim/ Põe as mãos em mim", a protagonista dirige-se ora ao homem com quem vive (o homem presente, a quem não deseja), ora ao homem ausente (aquele a quem deseja).

Isto é, a música utiliza, de forma não explícita, o recurso da troca de um dos interlocutores do discurso. É sempre a mulher que fala, mas cada verso se dirige a um homem diferente. Assim, temos "tira as mãos de mim", tu, meu amante; e "põe as mãos em mim", tu, meu amado.

E essa é apenas uma interpretação possível. Gosto também de interpretar a mudança de ordens (tira as mãos/põe as mãos) não como uma mudança de receptor do discurso, mas como uma forma de a protagonista (a emissora das ordens) externar um conflito que não suporta mais guardar para si; o conflito de estar com alguém mas desejar a companhia de outra pessoa.

Em outras palavras, a protagonista abre o jogo com seu parceiro, dizendo-lhe claramente: podemos ficar juntos, mas saibas que não és tu quem amo.

Essa verbalização faz da protagonista uma mulher que assume seu próprio desejo, mas que, por sabê-lo irrealizável, decide entregar-se aos braços de quem não ama, quiçá na esperança de fazer queimar no novo enlace as chamas do relacionamento extinto, guardadas dentro de si.

Por isso diz: "Tira as mãos de mim/ Põe as mãos em mim/ E vê se o fogo dele/ Guardado em mim/ Te incendeia um pouco...".

sábado, 11 de setembro de 2010

A maior riqueza

A maior riqueza de um homem são seus amigos. Quão maior for a profundidade e a qualidade das amizades feitas, maior será o proveito de nossa passagem pela vida. Recentemente tive de enfrentar uma situação difícil, a qual foi resolvida com o apoio de amigos preciosos.

Ao lado de estarem ao meu lado nessas horas sombrias, essas pessoas também me deixaram pedacinhos de suas experiências pessoais - verdadeiras lições de como levar uma vida menos tormentosa.

Hoje de manhã tive uma conversa com uma amiga que muito me auxiliou nos últimos tempos. A conversa iniciada por amenidades logo chegou a profundidades só acessíveis a pessoas que se compreendem.
Minha interlocutora então me contou sobre uma teoria (que depois vim descobrir se tratar da teoria da janela de Joharti), para a qual nossa identidade seria como uma janela dividida em quatro partes: uma parte da janela representaria aqueles elementos de nosso ser que estão visíveis para nós mesmos e para as demais pessoas; outra parte representaria aquilo que só nós conseguimos visualizar sobre nós mesmos; uma outra parte representaria aquilo que só as outras pessoas conseguem visualizar sobre nós; e a última parte da janela simbolizaria o completo desconhecimento, aquilo que não é visto nem conhecido por ninguém (sequer por nós).

O interessante, segundo minha leitura (ou segundo meu desvirtuamento) dessa teoria, seria a noção de que quanto maior for a parte que os outros conseguem conhecer de nós, menor será a parte que simboliza o completo desconhecimento sobre nosso self. Em outras palavras, o conhecimento do outro sobre nós (quando permitimos sejamos conhecidos de verdade), ajuda a dirigir um pequeno feixe de luz sobre nossos sentimentos mais indecifráveis.

Assim, de bons relacionamentos extraímos lições para nos conhecermos e vivermos melhor, assim bons amigos são nossa maior riqueza...

Interlúdio

As palavras estão muito ditas
e o mundo muito pensado.
Fico ao teu lado.


Não me digas que há futuro
nem passado.
Deixa o presente — claro muro
sem coisas escritas.

Deixa o presente. Não fales,
Não me expliques o presente,
pois é tudo demasiado.

Em águas de eternamente,
o cometa dos meus males
afunda, desarvorado.

Fico ao teu lado.

(CM).

terça-feira, 10 de agosto de 2010

O som de meus passos

Semana passada, cheguei de um dia absolutamente improdutivo de trabalho. Todas as tarefas e compromissos haviam se frustrado. Ao entrar em casa, como quisesse compensar as tarefas que não realizara, continuei usando meus sapatos, ao invés de calçar um par de tênis confortável. O som daqueles sapatos sérios pisando no piso frio - toc, toc, toc, toc - parecia conferir uma formalidade à minha presença em casa, como se eu pisasse no chão de um grande escritório e estivesse prestes a fazer algo relevante...

Era uma sensação boa, e de fato continuei de sapatos em casa, mas não realizei nada digno de nota naquele dia. A não ser recordar que alguns anos atrás havia tido uma sensação parecida: sentira que o som de meus passos me dizia algo importante.

Lembro de estar descendo pelas ruas silenciosas de um sábado à tarde rumo a minha antiga casa. O som do solado dos meus sapatos no cimento da calçada era tudo que eu ouvia naquele momento, certamente por olhar para meus pés enquanto caminhava e por não pensar em mais nada.

Então me ocorreu que minha existência se resumia ao som de meus passos. Mais do que isso: aquele som provava que eu estava vivo e me dizia que era necessário continuar caminhando. Enquanto eu caminhasse, tudo estaria bem...

Depois daquele dia, nunca mais tive aquela sensação. Mas hoje compreendo o ensinamento do som de meus passos e vejo a importância de continuar caminhando, pois todas as boas mudanças que sucederam em minha vida só ocorreram porque não estanquei minha marcha em face dos tantos medos paralisantes que me perseguem; só ocorreram porque não deixei de caminhar...

Embora os passos errados, os passos incertos, o passos em círculos, caminhei, a vida mudou, e me sinto feliz...

 

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Justifique meu amor


Jantando, para amenizar o silêncio (não costumo fazer isso; gosto do silêncio), liguei a televisão. Como não desejasse assistir a nada sério, fui para o canal de clipes. De repente, entre pedaços de pão, escutei justify my love, da Madonna.

Não tenho predileção específica pela Madonna, mas gostei muito de ouvi-la sussurrar: justifique meu amor...

Devaneios alimentares (aquele requeijão estava mesmo com uma aparência alucinógena) me fizeram compor uma cena em que eu, com olhar lânguido, diria isso a uma bela mulher: justifique meu amor!

Retornando dos devaneios, quis entender qual o significado de "justificar o amor", porque, a rigor, o amor é, por razões óbvias, sempre justificado. Amar é um processo natural (naturalmente doentio, diria Freud) pelo qual o olhar do ser amado nos torna menos faltantes (pra não dizer ilusoriamente completos). Amar preenche nossos buracos existenciais e, em suma, essa é uma justificativa suficiente. Logo, não faria sentido dizer para alguém "justifique meu amor..."

Bem, na verdade faria.

Dentro dos possíveis sentidos a serem construídos, elaborei um com auxílio do dicionário Oxford.

Para o dicionário Oxford (http://oxforddictionaries.com/definition/justify), uma das definições de "justify" é "be a good reason for".

Nesse caso, faz mesmo sentido dizer "seja uma boa razão para meu amor".

Porque o amor até pode ser, abstratamente falando, sempre justificado. Mas ele vale a pena mesmo quando encontramos alguém que seja uma boa razão para amar.