"Quem abre um livro e lê um trecho escolhido aleatoriamente combina arte e acaso". Com essa frase, inauguro uma nova seção do blog (já disponível no menu à esquerda), dedicada à transcrição de pequenos textos , aleatoriamente colhidos de livros que me vêm às mãos por desejo ou ócio.
São objetos para o prazer da contemplação estética das palavras; são produtos para consumo de outro tipo de beleza.
Só não transcrevo poesia, porque aí seria covardia com a prosa.
A proposta, aliás, é deixar o acaso apontar para coisas belas que de ordinário passam despercebidas, fechando o zoom da vista em algum parágrafo qualquer, como quem fotografa uma nuvem entre prédios altos, ou um pássaro solitário em fio de energia elétrica, parecendo uma nota em clave de sol...
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
Édipo mata o pai em acidente de trânsito II
Assim é
que a jornada de Édipo, muito antes de receber a conotação
sexual dada pelos psicanalistas, representa uma jornada de busca da
verdade pessoal, um sacrifício corajoso em busca da identidade
própria, tão prezada pelos gregos antigos.
Édipo,
como dizia no post anterior, desposara Jocasta, a rainha viúva
de Tebas, sem sabê-la sua mãe. Na condição
de rei, consulta o oráculo de Delfos durante uma peste que
assolava o seu reino, e este impõe a Édipo que encontre
o assassino do seu antecessor no trono de Tebas, o falecido rei Laio.
Como os gregos não costumavam desprezar nem vaticínios
nem incumbências dadas pelos Oráculos (vide Leonidas,
que se lascou contra os Persas após consultar o mesmo
oráculo), Édipo lança-se na investigação
proposta e sai em busca do autor da morte de Laio.
Ao fim e ao cabo,
descobre ter sido ele próprio quem o matara o rei Laio, e que,
muito pior, Laio era seu pai biológio, assim como a viúva que
desposara em Tebas, sua mãe. Desolado por conhecer a verdade
de sua existência, arranca seus olhos e passa a vagar pelo
mundo antigo, até que, após anos de exílio e
peregrinação, vem a ser perdoado pelos Deuses e consagrado como um herói, por ter tido a coragem de
“conhecer-se a si mesmo”.
Não é por acaso que a frase "Conhece-te a ti mesmo", segundo a tradição grega, e antes de ser apropriada por Sócrates, estava escrita no pórtico de entrada do Oráculo de Delfos.
Enfim,
essa leitura do mito, sobre a importância do autoconhecimento,
foi suplantada pela leitura da psicanálise moderna, de modo
que hoje Édipo é sinônimo de desejo sexual
incestuoso. Todavia, da leitura original do mito contado por
Sófocles, pode se extrair lição preciosa e
importante, principalmente para uma sociedade formada por pessoas sem
identidade própria: o caminho do autoconhecimento é
doloroso, exige coragem, mas é indispensável para que o
homem se liberte de uma condição de joguete do destino,
assumindo controle da própria existência.
(foto indicando o Templo de Apolo - vide foto no post "A origem do Filósofo Amador" -, onde ficava o Oráculo de Delfos, o qual foi consultado, dentre outros, por Édipo e Leonidas...)
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
Édipo mata o pai em acidente de trânsito
Como
tenho de viajar muito, para manter-me próximo de meus afetos,
tenho por rotina
percorrer
no mínimo uns mil quilômetros por mês.
Como
quisesse ocupar melhor essas horas vagas à direção,
pensei em algo mais instrutivo que escutar Robert Plant dizendo “me
aperte até o caldo começar a escorrer pela minha perna”
(posso criticar, porque sou fã – Led Zeppelin II, The Lemon
Song). Parêntese: alguém já disse que Jimmy Page
levou um ano para compor a música de Stairway to Heaven, e
Plant fez a letra numa ida ao banheiro... Assim como alguém
também já chamou esse grande vocalista de "Senhor dos
Anéis Erótico", por misturar esoterismo com sacanagem em
suas letras.
Fechado
parêntese, dizia que resolvi incrementar instrutivamente minhas viagens. Assim, baixei uma porção de arquivos de áudio do site
“Universidade Falada” (http://www.universidadefalada.com.br/). Dentre eles, o “ABC da Mitologia”, do grego
VIKTOR D. SALIS (ele mora no Brasil e fala muito bem português
– http://www.viktordesalis.pro.br).
Após ouvir esse arquivo (download gratuito), interessei-me pelos textos de Salis, e baixei outros arquivos de áudio deste autor (a preços módicos).
Explicando
aos poucos, porque ninguém quer perder tempo lendo um post de
vinte parágrafos (tempo líquido, diria Bauman...),
posso dizer que numa das palestras, Salis revisita o mito de Édipo,
do qual, confesso, só conhecia um esboço da versão
apresentada pela psicanálise moderna.
Ao
recontar o mito, Salis explica que Édipo (o de pés
inchados, pois lhe foram furados os pés ao nascer), é
um descendente da linhagem dos Labdácidas, e que seus
ascendentes há muito haviam sido amaldiçoados (a árvore
genealógica de Édipo remonta o casamento de Cadmo e
Harmonia, pelo qual os deuses do Olimpo buscaram restaurar o
convívios entre imortais e mortais – a propósito,
leiam o livro de Roberto Calasso sobre isso).
Édipo
mata seu pai biológico Laio (ao qual não conhecia) em
uma confusão envolvendo direito de passagem de carroças
sobre uma ponte. Isso mesmo, umas das primeiras mortes causadas por
motoristas esquentados! Hoje em dia, briga em acidente de trânsito
é cenário comum, mas quem diria que Édipo
mataria seu pai por motivo tão prosaico?
Após
isso, Édipo, que estava em fuga de sua cidade natal
(justamente para não matar seus pais adotivos, os quais
imaginava que seriam seus pais biológicos), refugia-se em
Tebas, e lá desposa sua mãe, Jocasta, viúva do
falecido rei Laio.
Até
aí, sem novidades. Mas para permanecer no trono de Tebas,
Édipo tem de se submeter ao oráculo (aquele mesmo de
Delfos, mencionado no post abaixo). E o que o oráculo faz?
Impõe a Édipo uma jornada pelo conhecimento de sua
história de vida, uma jornada em busca da verdade, a qual, de
tão luminosa e cruel, fará com que o herói
arranque os olhos das órbitas e vague maldito pelo mundo, até
alcançar o perdão dos deuses... (continua no próximo
post).
(escrito
ao som de: Bob Dylan, Shelter from the storm).
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
A origem do Filósofo Amador
Dois anos de silêncio. Dois anos de distância. Neste momento, em frente à página em branco e ao cursor intermitente, o afastamento se materializa e pesa sobre mim. Só agora, tentando avaliar a dificuldade de voltar a escrever, vejo o quão longe deste blog me coloquei...
Queria escrever um post sobre a origem do Filósofo Amador. Afinal, nada mais clichê do que explicar a origem do herói no terceiro livro da saga...
Botei na cabeça que precisaria rever o filme "Nunca aos domingos" para escrever o texto, e entrei numa onda de protelações levantada pela dificuldade de achar a película.
Enfim, quando percebi que minha exigência obstava a realização de uma ação necessária, abri mão da exigência, e me dispus a acreditar que um resultado qualquer é melhor que resultado nenhum - e que quem espera demais é porque já perdeu o trem.
Portanto, vamos lá: o Filósofo Amador remete ao filme "Nunca aos Domingos", cujo enredo traz um protagonista que viaja à Grécia em busca de uma explicação para o decaimento da cultura grega clássica , que tanto influenciou a civilização ocidental moderna. Em determinada cena, ao ser questionado sobre sua ocupação, autodenomina-se timidamente um "filósofo amador" - expressão cujo significado, para mim, hoje já se desprendeu do filme.
Nesses dois anos de silêncio, dentre tantas experiências vividas, também fui à Grécia, como o filósofo amador do filme. A escolha do destino, para quem nunca havia viajado para a Europa antes, certamente não foi obra do acaso.
Homer, o protagonista de "Nunca aos Domingos", não obteve resposta a suas perguntas ao visitar o berço cultural da civilização ocidental. Assim também eu voltei de lá sem resposta às minhas. Porém, quanto mais leio sobre o pensamento da Grécia Arcaica, mais tenho convicção de que a origem deve ser revisitada e estudada, para se conhecer o hoje e se determinar o amanhã.
(Em primeiro plano, o Teatro de Delfos; no fundo, ruínas do Templo de Apolo, onde se localizava o Oráculo mais famoso da antiguidade clássica).
Queria escrever um post sobre a origem do Filósofo Amador. Afinal, nada mais clichê do que explicar a origem do herói no terceiro livro da saga...
Botei na cabeça que precisaria rever o filme "Nunca aos domingos" para escrever o texto, e entrei numa onda de protelações levantada pela dificuldade de achar a película.
Enfim, quando percebi que minha exigência obstava a realização de uma ação necessária, abri mão da exigência, e me dispus a acreditar que um resultado qualquer é melhor que resultado nenhum - e que quem espera demais é porque já perdeu o trem.
Portanto, vamos lá: o Filósofo Amador remete ao filme "Nunca aos Domingos", cujo enredo traz um protagonista que viaja à Grécia em busca de uma explicação para o decaimento da cultura grega clássica , que tanto influenciou a civilização ocidental moderna. Em determinada cena, ao ser questionado sobre sua ocupação, autodenomina-se timidamente um "filósofo amador" - expressão cujo significado, para mim, hoje já se desprendeu do filme.
Nesses dois anos de silêncio, dentre tantas experiências vividas, também fui à Grécia, como o filósofo amador do filme. A escolha do destino, para quem nunca havia viajado para a Europa antes, certamente não foi obra do acaso.
Homer, o protagonista de "Nunca aos Domingos", não obteve resposta a suas perguntas ao visitar o berço cultural da civilização ocidental. Assim também eu voltei de lá sem resposta às minhas. Porém, quanto mais leio sobre o pensamento da Grécia Arcaica, mais tenho convicção de que a origem deve ser revisitada e estudada, para se conhecer o hoje e se determinar o amanhã.
(Em primeiro plano, o Teatro de Delfos; no fundo, ruínas do Templo de Apolo, onde se localizava o Oráculo mais famoso da antiguidade clássica).
Assinar:
Postagens (Atom)