"...Mas o quociente de dor que a gente sofre já não é chocante o bastante para não precisar de uma amplificação ficcional, que dê às coisas uma intensidade que é efêmera na vida e que por vezes chega a passar despercebida? Não para algumas pessoas.
Para umas poucas, muito poucas, essa amplificação, que brota do nada, insegura, constitui a única confirmação, e a vida não vivida, especulada, traçada no papel impresso, é a vida cujo significado acaba sendo mais importante..." (Philip Roth, Fantasma Sai de Cena).

domingo, 15 de abril de 2012

Silêncio, exílio e astúcia

"(...) Não servirei àquilo em que não acredito mais quer isso se chame minha família, minha terra natal ou minha Igreja; e procurarei me expressar por meio de uma certa forma de vida ou de arte tão livremente quanto possa e tão totalmente quanto possa, usando em minha defesa as únicas armas que me permito usar: o silêncio, o exílio e a astúcia" (James Joyce. O retrato do artista quando jovem. Objetiva, 2006, p. 259/260).

domingo, 24 de outubro de 2010

Quem deixa ir tem pra sempre

Vou escrever esse post e ignorar solenemente o fato de estar há um mês sem escrever nada por aqui. Essa uma das vantagens de ser o déspota de um feudo de palavras: ignorar certos fatos quando nos convém.

Enfim, The Division Bell possui uma faixa bastante conhecida: Lost for words. Hoje escutei dois versos que ficaram: To martyr yourself to caution/Is not going to help at all.

Trocando ideias em um almoço aprazível sob as árvores, fiz uma ligação desses versos com um capítulo que li há tempos no livro "Nudge" (obra que, adianto, não é de autoajuda e vale a pena). Basicamente o capítulo falava sobre um experimento em que se comprovava que a perda de um objeto gera uma tristeza maior do que a alegria de ganhá-lo. Nas palavras do livro: "De maneira geral, a tristeza pela perda de algo é duas vezes maior do que a alegria proporcionada pelo ganho dessa mesma coisa".

Daí, concatenando essas ideias com outras duas ou três que não estou a fim de mencionar (realmente estou despótico hoje), fiquei pensando como o medo da perda é: (1) inútil, pois na maioria das vezes não impede que a perda aconteça; (2) e, pior do que isso, às vezes é justamente o medo que traz a perda, pois de tão preocupados em nos apropriamos para sempre de certas coisas (ou pessoas, ou momentos) nos tornamos pessoas inseguras e menos divertidas.

Bem, olhos postos no novo pôr-do-sol que ganhei de presente, e com versos da Apanhador Só, encerro esse post comemorativo de um mês de silêncio:

"... quem deixa ir tem pra sempre.
(...)
A pressa esconde o que já é evidente.
Foi do meu lado que eu achei o que me fez assim
Tão diferente..."

sábado, 25 de setembro de 2010

Tira as mãos de mim II

Outra interpretação possível para "Tiras as mãos de mim" (*) é a de uma mulher conversando consigo mesma.

Ao invés de externar ao seu atual companheiro que ama outra pessoa, a mulher simplesmente olha para o homem diante de si e pensa: "Tiras as mãos de mim", porque não te quero; mas "Põe as mãos em mim", porque tuas mãos serão as mãos do meu amado quando eu fechar os olhos.

Em outras palavras, a mulher tenta suportar a falta do ser amado, utilizando-se de uma pessoa que fará as vezes deste, embora não existam semelhanças entre os dois indivíduos.

Na verdade, tamanha é a diferença entre os dois homens, que é possível cogitar ter a mulher escolhido um novo amante sem qualquer qualidade, seja para que isso ressaltasse os bons predicados do antigo amado, seja para que isso lhe torturasse ainda mais a alma, dando vazão a um sentimento de culpa inconsciente.

Fato é haver um desprezo pelo atual companheiro ("Na guerra és vil/ Na cama és mocho"), circunstância a colorir com certa ironia o melancólico novo relacionamento...


(*) O álbum Chico Canta, no qual se encontra essa música, foi concebido como trilha sonora para a peça Calabar: O elogio da Traição. Ao lado das interpretações feitas neste e no anterior post - e de infinitas interpretações possíveis -, há uma leitura "oficial" para "Tira as mãos de mim": a canção retrataria um episódio da invasão Holandesa no Brasil, envolvendo Domingos Fernandes Calabar, sua esposa Bárbara e Sebastião Couto, amigo de Calabar (vide http://www.filologia.org.br/viiicnlf/anais/caderno05-04.html).

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Tira as mãos de mim

Chico Canta, de 1973, é uma obra-prima. Nessa obra-prima, entre músicas mais conhecidas do público, como Tatuagem, há uma pela qual possuo apreço ímpar: Tira as mãos de mim.

O eu lírico dessa canção-poema é uma mulher em conflito: vive com um homem; deseja outro. Daí a comparação que permeia o texto: "Ele era mil/ Tu és nenhum".

A aparente contradição do refrão é a representação perfeita do conflito do eu lírico. Ao dizer "Tira as mãos de mim/ Põe as mãos em mim", a protagonista dirige-se ora ao homem com quem vive (o homem presente, a quem não deseja), ora ao homem ausente (aquele a quem deseja).

Isto é, a música utiliza, de forma não explícita, o recurso da troca de um dos interlocutores do discurso. É sempre a mulher que fala, mas cada verso se dirige a um homem diferente. Assim, temos "tira as mãos de mim", tu, meu amante; e "põe as mãos em mim", tu, meu amado.

E essa é apenas uma interpretação possível. Gosto também de interpretar a mudança de ordens (tira as mãos/põe as mãos) não como uma mudança de receptor do discurso, mas como uma forma de a protagonista (a emissora das ordens) externar um conflito que não suporta mais guardar para si; o conflito de estar com alguém mas desejar a companhia de outra pessoa.

Em outras palavras, a protagonista abre o jogo com seu parceiro, dizendo-lhe claramente: podemos ficar juntos, mas saibas que não és tu quem amo.

Essa verbalização faz da protagonista uma mulher que assume seu próprio desejo, mas que, por sabê-lo irrealizável, decide entregar-se aos braços de quem não ama, quiçá na esperança de fazer queimar no novo enlace as chamas do relacionamento extinto, guardadas dentro de si.

Por isso diz: "Tira as mãos de mim/ Põe as mãos em mim/ E vê se o fogo dele/ Guardado em mim/ Te incendeia um pouco...".