"...Mas o quociente de dor que a gente sofre já não é chocante o bastante para não precisar de uma amplificação ficcional, que dê às coisas uma intensidade que é efêmera na vida e que por vezes chega a passar despercebida? Não para algumas pessoas.
Para umas poucas, muito poucas, essa amplificação, que brota do nada, insegura, constitui a única confirmação, e a vida não vivida, especulada, traçada no papel impresso, é a vida cujo significado acaba sendo mais importante..." (Philip Roth, Fantasma Sai de Cena).

sexta-feira, 5 de junho de 2009

O benefício da dúvida....

Dizem que no Direito Penal existe o chamado benefício da dúvida, pelo qual a incerteza sobre
o crime deve beneficiar o réu.

Isso significa dizer: a dúvida não pode levar a uma condenação.

Nesse caso, portanto, há uma regra para lidarmos com a incerteza.

E, nas outras áreas da vida, o que fazer diante de uma dúvida?

Há quem, pensando que o dia vindouro pode não chegar efetivamente, decida viver intensamente o momento presente. Há quem, pensando no risco (incerteza) de um empreendimento, veja uma oportunidade inexplorada para alcançar o êxito.

Mas há aqueles que, deparando-se com a dúvida, sofrem com a angústia da incerteza, e preferem: a) não agir até ser superada a dúvida (angústia paralisadora); b) ou antecipar mentalmente a solução da dúvida, o que é feito, via de regra, de forma desfavorável (angústia da condenação antecipada).

Um exemplo dessa última situação: o candidato de um concurso está respondendo a primeira questão de uma prova dissertativa. Após transcrever sua resposta, depara-se com uma dúvida sobre a correção da idéia que apresentou. Em segundos, por conta da angústia, já não tem dúvida, mas uma pseudocerteza de que a resposta fornecida está errada.

A partir desse momento, tenha ou não acertado a primeira questão, a angústia do candidato dificultará que efetivamente tenha êxito nas demais questões.

Essa é a angústia da condenação antecipada. Ou seja, acredita-se piamente que a incerteza se resolverá na forma de uma derrota.

E é interessante notar o quanto usamos esse mecanismo.

Quantas vezes, ao nos depararmos com a incerteza em relação a um relacionamento afetivo, acabamos por antecipar um desfecho pior do que o efetivamente necessário? Tudo porque interpretamos os sinais dúbios do objeto de nosso desejo (e sempre são dúbios) em nosso desfavor.

Portanto, presumir indevidamente que já se perdeu a batalha pode precipitar uma derrota ainda não consumada. Mais grave ainda: isso pode determinar uma perda que poderia ser evitada com uma postura imparcial diante da incerteza.

A maneira de evitar a angústia da condenação antecipada? Quisera saber.

Mas duas ideias me acalentam boas esperanças. Uma é não deixar que o medo nos leve à fantasia. Isto é, o medo de perder, de não ser amado, de não ser reconhecido, deve ser tratado como parte integrante da vida, mas não pode conduzir à fantasia de que nenhuma batalha será perdida, pois isso só ocorre quando nenhuma batalha é disputada.

A segunda ideia é usar o benefício da dúvida: o que os dados do destino ainda não decidiram, não cabe a nós decidirmos antecipadamente.

Mas se quisermos pressupor um resultado, que o façamos, ao menos, em nosso favor, de forma a gozar do prazer de cada momento, enquanto os dados do destino ainda rolam na mesa do acaso...


(escrito ouvindo:

"Nas grandes cidades,
No pequeno dia-a-dia,
O medo nos leva a tudo
Sobretudo à fantasia...

Então erguemos muros
que nos dão a garantia
de que morreremos cheios
de uma vida tão vazia...."
).

4 comentários:

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  3. Olá caro amigo!
    Cury diz algo nesse sentido: "só é possível escrever os principais textos das nossas vidas nos momentos mais dificeis de nossa exitencia, nos momentos de maiores duvidas..."
    Bom texto!
    Abç.

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  4. Hum... gostei! Acredito que a questão é manter um equilibrio entre os mecanismos de defesa que usamos, para que no final das contas ele curmpra com sua função de defesa/proteção do sujeito e não gerando ainda mais conflito interno.
    :)

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